Estar alegre, brincar o Carnaval e celebrar a cultura não é pecado. Quem garante é o Padre Wagner Toledo Moreira, Pároco e Reitor do Santuário de Santa Rita de Cássia no Centro do Rio de Janeiro e Diretor Espiritual da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, que conversou com a revista Vila Morena. Conforme o religioso, o pecado não está na festa, mas pode estar na maneira e no comportamento de cada pessoa.
Padre Wagner Toledo – “Como padre da Igreja Católica e como alguém que ama profundamente a cultura popular, especialmente o Carnaval, e aqui não escondo meu carinho e minha paixão pelo Acadêmicos do Salgueiro, acredito que é preciso falar desse tema com honestidade teológica, sem moralismos e sem reduções simplistas da fé. Do ponto de vista cristão, o Carnaval não é pecado em si. A alegria, a dança, a música, o corpo que se move e celebra fazem parte da experiência humana criada por Deus.”
Vila Morena – Historicamente, pelo cristianismo, o Carnaval é considerado uma festa pagã. A igreja católica repreende um fiel que gosta de cair na folia?
Padre Wagner Toledo – “O pecado, na tradição cristã, não está na festa, mas naquilo que desumaniza: o excesso que anula a consciência, a violência, o desrespeito ao próprio corpo e ao corpo do outro, a perda do sentido do amor e da responsabilidade. Onde há vida, respeito e alegria verdadeira, ali não há oposição a Deus. Historicamente, o Carnaval se desenvolve dentro do próprio calendário cristão, como um tempo anterior à Quaresma. Ele dialoga com elementos populares, culturais e até pré-cristãos, como acontece com muitas expressões humanas que o cristianismo não destruiu, mas assumiu, purificou e ressignificou. A Igreja Católica, portanto, não condena o fiel que gosta de “cair na folia”. O que ela sempre fez, e continua fazendo, é convidar à vivência equilibrada da liberdade cristã, que não é libertinagem, mas responsabilidade amorosa.”
Vila Morena – As celebrações com hinos e louvores realizadas por correntes religiosas, nesses dias, são heresias?
Padre Wagner Toledo – “Da mesma forma, as celebrações religiosas com hinos, louvores ou retiros durante o Carnaval não são heresias. São expressões legítimas de espiritualidade. O problema começa quando se transforma a fé em instrumento de julgamento do outro, como se houvesse uma única forma correta de viver o Evangelho.
Vila Morena – Como deve um folião, principalmente cristão, se comportar em um bloco de Carnaval?
Padre Wagner Toledo – A tradição cristã é rica e plural. O Evangelho não uniformiza culturas; ele as atravessa com amor. Um cristão que participa de um bloco, de um desfile ou de uma roda de samba é chamado a se comportar como cristão em qualquer lugar: com consciência, respeito, alegria saudável e cuidado com o outro. O Evangelho não suspende sua validade durante o Carnaval. Ao contrário, ele pode e deve estar presente também ali, no meio do povo, da música, do suor, do riso e da esperança que o Carnaval carrega, especialmente para os mais pobres.”
Vila Morena – Após o Carnaval, o que é recomendado a quem se entregou à folia?
Padre Wagner Toledo – “Depois do Carnaval, a Igreja nos conduz à Quaresma. Não como castigo pela alegria vivida, mas como movimento espiritual de equilíbrio. Depois da festa, o recolhimento; depois do barulho, o silêncio; depois da celebração externa, o retorno ao coração. A conversão cristã não nega o corpo nem a cultura, mas integra tudo isso numa vida orientada para Deus.”
Vila Morena – Padre Wagner Toledo, o senhor, como membro com um cargo importante dentro de uma Escola de Samba, sendo ela o Salgueiro, qual o sentimento que toca o seu coração?
Padre Wagner Toledo – “E aqui faço uma confissão pessoal: quando vejo uma bateria pulsar, quando o samba enredo do Salgueiro ecoa forte, eu me lembro do Salmo 150, que nos convida a louvar a Deus com tamborins, danças, címbalos retumbantes, com tudo o que respira e vibra. A Bíblia não é um livro contra o som, contra o corpo ou contra a alegria. Ela é um convite a que toda a vida, inclusive a festa, seja atravessada pelo louvor”.



