O que poderia haver de positivo no Carnaval? E o que poderia existir de negativo? É claro que são esses questionamentos rasos que emergem nos dias em que a festa se aproxima. É necessário, contudo, ter distância do reducionismo e refletir sobre o Carnaval, como propõe o carnavalesco, artista plástico, ilustrador e designer gráfico, Flávio Tavares, que realiza trabalhos em escolas de samba como Salgueiro no Rio de Janeiro e Vai-Vai em São Paulo.
Tavares destaca a necessidade de refletir sobre os estereótipos do Carnaval. “Todos os anos, quando o Carnaval se aproxima, surge também um debate recorrente: afinal, essa festa popular traz algo de realmente positivo ou é apenas sinônimo de excessos, desperdício e fuga da realidade? Entre críticas e celebrações apaixonadas, talvez a resposta mais honesta esteja em reconhecer que o Carnaval é um fenômeno muito complexo e, como tal, cheio de contradições. Para muitos, o Carnaval representa um período de ruptura com a rotina. A suspensão temporária das regras sociais rígidas permite que pessoas experimentem novas formas de expressão, identidade e convivência. Fantasias, música e dança criam um espaço simbólico onde as diferenças sociais parecem se diluir — ainda que apenas por alguns dias. Esse aspecto pode ser visto como uma válvula de escape coletiva, uma forma de aliviar tensões acumuladas ao longo do ano.”
O artista plástico lembra que, culturalmente, o Carnaval carrega valor significativo, preservando tradições e fortalecendo manifestações artísticas populares que servem como vitrine da diversidade brasileira, onde todas as expressões trazem histórias críticas sociais e identidades que não contam com espaço em outro cenário.
Apesar de todo valor cultural, essa festa popular, onde milhares de pessoas das mais variadas origens e personalidades se encontram num êxtase coletivo, carrega problemas da coletividade. Entretanto, ignorar os problemas seria ingenuidade. Há quem veja no Carnaval um incentivo ao consumo excessivo, à superficialidade ou à desorganização urbana. Questões como segurança, impacto ambiental e desigualdade econômica ficam mais evidentes durante a festa. Talvez o verdadeiro valor do Carnaval esteja justamente nessa tensão entre celebração e crítica. Ele funciona como um espelho da sociedade: amplifica tanto nossas qualidades quanto nossos desafios. Em vez de enxergá-lo apenas como algo positivo ou negativo, pode ser mais produtivo perguntar como queremos vivê-lo e que significado atribuímos a ele,” reflete Flávio, que reconhece o fenômeno social dessa que é a maior festa popular global. “No fim, o Carnaval não é apenas uma festa — é um fenômeno social que revela quem somos, o que valorizamos e até aquilo que precisamos repensar. Seu lado positivo pode não estar apenas na alegria visível, mas na capacidade de provocar reflexão sobre liberdade, cultura e convivência coletiva.“
Foto: Agência Brasil
Local: Rio de Janeiro – desfile do Cordão da Bola Preta


