Escrevo este texto inspirado e embalado pela música “Balada de Gisberta”, interpretada por Maria Bethânia e Liniker: “E a distância até o fundo é tão pequena…”
Junho é o mês do orgulho LGBTI+. Debater esse tema, essa existência, sem falar de dor, luto e sofrimento, é impossível. Ansiamos realmente viver plenamente esse sentimento de orgulho. Isso até pode ser possível, mas, para viver com orgulho, é preciso antes ter muita força e resistência numa luta constante.
As estatísticas ratificam o quanto a recusa da nossa existência é forte e crescente. Uma sociedade opressora, que nos ataca, debocha, exclui, ridiculariza, inferioriza e, além de tudo, nos mata, principalmente fisicamente, seja a tiros e a pauladas, e que conta com um exército de diversos representantes do povo no legislativo Brasil afora, que apresenta e tenta aprovar leis que limitem ainda mais direitos da comunidade LGBTI+. Relembramos Dandara dos Santos, de 42 anos, que morreu em fevereiro de 2017, em Fortaleza (CE). A travesti foi torturada, recebeu socos, chutes, pauladas, pedradas e ainda foi assassinada a tiros.
Ainda assim, seguimos firmes, propondo insistentemente, de forma pacífica, um debate, exigindo apenas o direito de viver de maneira harmoniosa numa sociedade na qual todos devem ser iguais perante a lei, e o direito de existir é fundamental.
Dados assustadores, apresentados pelo Grupo Gay da Bahia, indicam que, no ano de 2025, no Brasil — que continua liderando as estatísticas de violência contra a comunidade —, foram registradas 257 mortes violentas de pessoas LGBTI+. Esmiuçando esses números, o Grupo Gay da Bahia aponta a média de uma morte violenta de membro da comunidade a cada 34 horas.
Apesar de apontar um percentual menor em relação ao ano anterior, quando 291 mortes foram contabilizadas para a comunidade, representando para 2026 uma redução de 11,7%, o que não quer dizer que podemos dormir sossegados.
O Grupo Gay da Bahia desmembrou esses números de 2025 e revelou que, desse total, 204 foram homicídios, 20 suicídios, 17 latrocínios e 16 mortes por causas desconhecidas. Infelizmente, esses registros podem não ser tão fiéis e faltar números, uma vez que são feitos a partir do que a polícia recebe como casos nitidamente de homofobia e transfobia. Se pensarmos que há casos em que a causa pode não ser totalmente identificada e ficam incluídas nos registros “outras causas”.
O que chama a atenção, fazendo uma fatia para toda essa numeração, são os casos de suicídios, um assunto que a sociedade insiste em colocar debaixo do tapete, para evitar estimular quem se vê na possibilidade de tentar contra a própria vida. Mas esse silêncio abre a lacuna para um tema em que o suicidado já foi “assassinado” moralmente pela família, em primeiro lugar, e depois do portão para fora de casa. Semelhante à história de Van Gogh, que, antes mesmo de se matar (há controvérsias históricas), já havia sido suicidado pela sociedade que não compreendia o artista, que tinha sérios problemas psiquiátricos.
Atenta a esse risco iminente, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), que trabalha a comunidade em todas as suas expressões e ameaças, nos mostra que o suicídio é a segunda maior causa de mortes de jovens no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil ocupa a 8ª posição no mundo em casos de suicídios de jovens com idades de 15 e 29 anos, com um indicativo de 24 suicídios por dia. “Estima-se que 42% da população trans já tentou suicídio. Recentemente, um relatório chamado “Transexualidades e Saúde Pública no Brasil”, do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT e do Departamento de Antropologia e Arqueologia, revelou que 85,7% dos homens trans já pensaram em suicídio ou tentaram cometer o ato. Mas não aprofundou sobre as motivações e outros dados sobre o tema.” (ANTRA, 2018).
Ainda sobre esse tema, estudos apontam que jovens LGBTI+ possuem de 3 a 7 vezes uma chance maior de tentar o suicídio se comparados com a mesma faixa etária heterossexual.
Com relação a essa questão, estudos indicam que “viver no armário” não é um refúgio de proteção, mas sim de risco, porque não revelar a orientação sexual está entre as maiores causas de suicídio. UCLA Williams Institute: “Mais de 60% das tentativas de suicídio entre pessoas LGBTI+ acontecem cinco anos após perceberem que são LGBTI+.” National Institute of Health. — “Pesquisadores encontraram disparidades nos riscos de suicídio entre adultos lésbicas, gays e bissexuais.” The Guardian – “Jovens LGBTI+ em processo de descoberta ou não assumidos têm duas vezes mais probabilidade de pensar em suicídio, revela pesquisa.”
O que podemos listar como motivadores para atitudes tão extremas causadas por problemas sociais como rejeição pela família, amigos e religião, medo de ser agredido e excluído sem conseguir oportunidade de trabalho, tentativa de retomar a sua falsa condição heterossexual, e por aí vai.
Portanto, a exaustão, que nos leva a esse debate, não nos coloca no lugar de celebração, mas de pouco orgulho. E todos os anos, em seus doze meses, precisamos brigar para que sejamos respeitados e tenhamos o direito à vida, tanto a carnal quanto a social. Percebe-se que as políticas públicas para a comunidade são lentas, discretas e tímidas. O tema banheiro é um desgaste que a sociedade nos leva feito arma e defende feito fera, e insiste em agarrar como proprietário um espaço de saúde, público, onde todo ser humano necessita utilizar. Diante desse orgulho que oscila entre luta e luto, podemos brindar conscientes de que as festas das paradas LGBTI+ apenas celebram a nossa convivência em “nossas aldeias” e toda a alegria que derramamos apesar de profunda dor.
Porém, essa enorme euforia e descontração acabam, e cada um retorna silenciosamente para seu auto ninho do medo, da frustração e do desejo infinito de poder ser. E seguir vivendo, esperando que em novo dia novamente a pessoa LGBTI+ possa sair e voltar para casa com sua integridade física e moral intactas e que a sua trajetória seja de igualdade política, jurídica e, acima de tudo, social.
*Imagem gerada por IA


