A parada LGBTI+ de São Paulo completa 30 anos em 2026, sendo a caminhada mais importante para o movimento, embora a do Rio de Janeiro seja a mais antiga no Brasil. Em 25 de junho de 1995, a capital carioca promoveu a primeira “Marcha da Cidadania”, encerrando a 17ª Conferência Mundial da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexuais (ILGA), uma federação global presente em mais de 2.000 organizações afiliadas em 170 países, promovendo a promoção e defesa dos direitos humanos da comunidade LGBTI+ em todo o mundo.
Ao celebrar o trigésimo aniversário, em que a cada ano está “balzaquiana” e demonstra mais vigor ainda, é importante destacar que, além desses 30 anos, o mês de junho, com o título de mês do orgulho gay, já carrega essa importância há 56 anos. Em 1970, o mês passou a receber essa importância em referência aos primeiros protestos e marchas comemorativas organizadas nos Estados Unidos para lembrar a Rebelião de Stonewall, que teve início em 28 de junho de 1969, em Nova York.
Apesar de toda essa caminhada por meio de organizações legais que, ao assumirem o papel de representatividade da comunidade, as “cartas de repúdio” foram abandonadas e houve a procura pelo debate em uma luta mais política do que social.
Ainda assim, os entraves persistem. Em um mundo cada vez mais ameaçado por ideologias religiosas e políticas de extremo conservadorismo, inicia-se nesse 1/4 de século a necessidade de resistir para não recuar em nenhuma conquista até aqui alcançada. O movimento global em defesa da vida, da existência e da liberdade de ser permanece atento, porque a ameaça não vem apenas reprimir espaços e cassar direitos, mas a eliminação física de cada membro é como uma ameaça velada.
A prova de toda essa campanha nítida de perseguição à comunidade LGBTI+ é traduzida pelas pressões políticas e tentativas de esvaziamento institucional, como ocorreu recentemente com a Parada de São Paulo, em 7 de junho de 2026.
Hoje, a sigla da comunidade já conta com 37 letras e o número “2”, Two-Spirits (dois espíritos), que faz uma referência e identidade cultural utilizada por vários povos indígenas da América do Norte para descrever pessoas que possuem tanto um espírito masculino quanto um feminino, de gênero e/ou espiritual.
Para entendermos um pouco mais desse caminho que não apenas a Parada do Orgulho LGBT+ de SP, mas de todo o movimento que expressa esse debate de forma global, Vila Morena conversou com Tony Reis, 62 anos, 36 deles casado com David, com quem é pai de três filhos. Tony atua na direção executiva da Aliança Brasileira LGBTI+, é presidente da Associação Brasileira de Famílias Homo, Trans afetivas e diretor financeiro da Rede Gay Latina. Também é doutor em Educação, mestre em Filosofia e tem formação em Letras, História e Pedagogia. No currículo exalta a coautoria do livro “LGBTI+ é Conversa para Escola?” Publicado pela WAK Editora.

Vila Morena – Dos anos 1980 até 2026, as conquistas para a comunidade foram significativas? Houve avanço?
Toni Reis: “Dos anos 80 a 2026, as conquistas para a comunidade foram significativas. Teve avanço, muito avanço. No início dos anos 80, nós tivemos a pandemia da AIDS, que foi um grande problema para a nossa comunidade. A partir de 84, quando eu entrei no movimento, começamos a nos organizar e eu tive a oportunidade de morar na Europa e participei de várias organizações LGBTI+. Voltei para o Brasil em 1992, e fundamos o Grupo Dignidade e, em 1995, em Curitiba, fundamos a ABGLT, a primeira Associação Brasileira LGBTI+, que congrega grupos de todo o Brasil. A partir daí, começamos a lutar de forma muito bem organizada, deixando aquele momento só de carta de repúdio, partimos para o diálogo com toda a sociedade. Hoje, podemos dizer que conseguimos todos os direitos para a comunidade LGBTI+. Podemos casar, podemos adotar, podemos retificar nossos nomes e gênero, a LGBTfobia foi criminalizada, estamos derrubando todas as leis contra nossa comunidade e leis inconstitucionais.”
Vila Morena – As conquistas citadas acima e observadas pela sociedade não geram mais pressão ou debates para a comunidade?
Toni Reis: “Isto não quer dizer que nós não tenhamos desafios. Temos muitos, e principalmente com relação às pessoas trans, porque há uma organização internacional e nacional que quer vetá-las de usar o banheiro, de participar de ações de mulheres cis, de participar do esporte, então há uma perseguição, principalmente às pessoas trans.”
Vila Morena – Qual o maior entrave para que os direitos e espaços para a comunidade sejam plenamente satisfatórios?
Toni Reis: “Primeiro é essa extrema-direita que está organizada no âmbito internacional. Aí mistura essa política com fundamentalismo religioso. Talvez os dois grandes problemas sejam a heteronormatividade compulsória, que acha que todos temos que ser héteros. Não temos ainda esta contagem, mas a gente tem a estimativa a partir da pesquisa de Kinsey, de que nós somos 10% da população. E os principais entraves são a nossa oposição muito bem organizada e poderosa.”

Vila Morena – Como tem sido, então, esse momento de desafios com essa organização extremista reprimindo a comunidade?
Toni Reis: “A gente tem hackeado esse sistema, temos utilizado de todas as armas, a gente tem conquistado e melhorado muito. Em 1990, nós tínhamos 5% de apoio da população. Hoje nós estamos chegando a 55%. Então, há um avanço nesse sentido também. E os entraves a gente vai superando com muita diplomacia, muita organização e muito diálogo.”
Vila Morena – Desde o início da sua caminhada, se colocando na linha de frente em defesa dos direitos da pessoa LGBTI+, em algum momento você sofreu represálias?
Toni Reis: — Olha, é todo dia! Desde quando nós fundamos o Grupo Dignidade, que naquela época tinha só telefone fixo, recebemos ameaças de morte, denúncias, e todo dia a gente sofre uma denúncia no Ministério Público. Em todos os órgãos as pessoas denunciam, e a gente responde às denúncias, aos processos. Essas represálias para mim são indicadoras do sucesso. A gente tem que responder tudo com muita ética, muita transparência, integridade, de uma forma diplomática, democrática. A gente não pode se intimidar. A luta é muito árdua porque a gente está lidando com um sistema e uma cultura arcaica, que na Idade Média nos matavam na fogueira. Nós éramos pecadores mortais. Depois fomos transformados em criminosos; inclusive, 60 países no mundo ainda criminalizam a homossexualidade. Até 17 de maio de 1990, nós éramos considerados doentes, e as pessoas trans eram consideradas doentes até 2018. Há o rescaldo de uma cultura extremamente estigmatizante e preconceituosa contra a nossa comunidade.”
Vila Morena – A comunidade de hoje tem comportamento e ideais semelhantes aos do século passado, por exemplo?
Toni Reis: “Eu vejo que nós estamos evoluindo. Nós estamos chegando a um momento em que nós somos 37 letras e um número, que é o número dois, (Two-Spirits). A nossa comunidade é diversa. Nós éramos, em 1980 até 1993, todos homossexuais. Então hoje a comunidade está muito diversa, o que é lindo, e eu espero que aos poucos deixe de usar siglas e letras e passe a usar uma palavra, tipo “Pessoas da Diversidade”, “Povo do Arco-Íris”, “Nação Queer”, para abranger todas essas pessoas. Então mudou e hoje cada um tem a sua visibilidade, a sua identidade, a sua expressão de gênero, o que é perfeitamente legítimo.”
Vila Morena – As mudanças de ideologias políticas dificultam essa relação? Fazem o movimento recuar?
Toni Reis: “Eu acho que nós estamos mudando a forma de fazer política, de cobrar os governos, que não é mais aquela, se governo é contra. Se tem governo, tem que dialogar, tem que fiscalizar, tem que cobrar e tem que exigir o papel para o qual o Estado foi criado. Que é para o bem-estar da sociedade como um todo. Inclusive para a comunidade LGBTI+.”
Vila Morena – No momento, qual o diálogo mais difícil para a comunidade estabelecer?
Toni Reis: “A causa mais difícil para nós da comunidade é fazer esse diálogo com as religiões mais dogmáticas e mais fundamentalistas. A maioria das pessoas da comunidade foi muito reprimida por essas religiões. Eu conheço muita gente que tem ojeriza quando fala em religião, porque elas foram muito machucadas, então. Talvez a questão mais difícil seja essa: trabalhar com as pessoas extremistas que querem nosso aniquilamento. A palavra é essa! Eles não querem que a gente exista. E querem nos colocar no armário, e nós não voltaremos para o armário. Até porque o armário da alergia tem ácaros, e nós precisamos viver a vida e colocar a cara no sol.”
Vila Morena – A educação pode ajudar no combate à homo, lesbo e transfobia?
Toni Reis: — É uma questão de política pública. É algo extremo, é a questão da violência e, inclusive, da morte. Por isso que nós temos que trabalhar na educação básica. Na escola, a criança e o adolescente têm que aprender que todos nós somos diferentes e merecemos ser respeitados. Nós precisamos de dados, e hoje as organizações não governamentais fazem esse levantamento. Nós queremos que seja feito por meio dos boletins de ocorrência, e que isso o Ministério da Justiça, o futuro Ministério da Segurança Pública, faça esse levantamento sobre as violências contra as nossas comunidades, as mulheres, negros, pessoas com deficiência, porque, a partir dos dados, a gente vai demonstrar que nós precisamos de políticas públicas de sensibilizar o setor de segurança para investigação de todos os crimes contra a nossa comunidade.”

Vila Morena – As conquistas para a comunidade LGBTI+ são muito árduas?
Toni Reis: “Para a comunidade, nada é fácil. A gente tem que lutar todo dia. Todo dia é uma lei contra a gente, todo dia é um protesto, é um pastor falando mal, todo dia é alguém espancando. Todos os dias do ano tem uma morte de um de nós, pelo simples fato de ele ter uma orientação sexual ou identidade de gênero. Então a nossa vida não é nenhum pouquinho fácil.”
A alegria, a descontração e as cores estampadas em cada pessoa da comunidade se apagam ao primeiro levantar da fúria de uma ação homofóbica. A luta, como retratou Toni Reis, é diária, e a sociedade não tem como mensurar essa violência sem a imprensa para denunciar.
Até o mês de maio de 2026, o Brasil registrou 111 mortes violentas de pessoas LGBTI+ (sendo uma a cada 36 horas). Para o Grupo Gay da Bahia, se esse ritmo continuar, o Brasil vai se manter como líder no ranking de nação que mais assassina pessoas da comunidade.
O perfil das vítimas de assassinatos de homo e transfobia, numa média levantada pelo Grupo Gay da Bahia até o momento, é de 60% gays, 23% mulheres trans e 11% lésbicas.
Os recursos para intervir e construir uma sociedade livre desse preconceito estão na educação, órgãos públicos e suas políticas de humanizar essas relações e assegurar direitos às pessoas LGBTI+.
O serviço de denúncia e pedido de socorro permanece ativo por meio do Disque 100.


