Trabalhadoras do sexo: a prostituição num manual de sífilis do século XIX
O aspecto simbólico da prostituição parece estar ligado ao confronto entre a "limpeza moral” e o “mal necessário”
Raiza Favaro
Maria Regina Cotrim Guimarães
08/03/2025


PASTOR, F. Bordel Moderno‖. In: DUFOUR, Pedro. História da prostituição em Portugal.
Detalhe.
Lisboa: Empresa Editora F. Pastor, 1887.
Popularmente chamadas hoje nas redes sociais como meninas do job, garotas de programa ou simplesmente putas (as palavras sempre estão conectadas com o extrato social...), as trabalhadoras do sexo, prostitutas ou meretrizes, circulam nas várias sociedades há milênios. Na Bíblia, por exemplo, estas mulheres aparecem em Provérbios (7:10-12), quando de um alerta sobre os perigos da imoralidade sexual; em Josué (2:1), Raabe é a prostituta que ajuda os espiões de Israel a vencerem uma batalha. Nos Evangelhos, Jesus, ao ensinar sobre arrependimento e perdão, afirma que publicanos e prostitutas entram antes no reino de Deus (Mateus 21:31-32). Já em Ezequiel, a prostituição é uma metáfora para a infidelidade espiritual de Israel (Ezequiel 16:30). Assim, a trajetória dessas mulheres está marcada por uma relação com as normas sociais, culturais e religiosas, como indicou um médico anônimo português do início do século XIX, ao redigir um tratado dirigido à Academia de Ciências de Lisboa sobre medidas para controle da sífilis entre as prostitutas e seus clientes.
Nos séculos XVIII e XIX, a prostituição ganhou destaque em estudos médicos. Afinal, os doutores tentavam explicar, através de seus conhecimentos, a sociedade e os comportamentos dentro de um vai-e-vem incessante para definir os limites do que fosse normal e patológico. Envolveram-se, assim, com as doenças que entendiam ser ameaças às populações mais vulneráveis; nosso autor anônimo, em 1839, estudou especialmente a sífilis, grande risco para a saúde e uma das doenças mais intrigantes da época. As prostitutas, trabalhadoras incansáveis e desvalorizadas, tiveram sua presença na sociedade dos oitocentos marcada por uma dualidade: de um lado, um flagelo físico e moral da sífilis, mas de outro, uma necessidade social a ser cumprida.
Diante disso, o próprio autor, em 1839, nos ajuda a entender as razões pelas quais, apesar de tão nociva e combatida, a prostituição não desapareceria e, mais, seguiria se adaptando aos novos costumes, alcançando as tecnologias e plataformas digitais a partir do final do século XX. Bem, para a medicina europeia e, especificamente, a portuguesa dos tempos do nosso autor anônimo, deveria haver um mecanismo de regulação dos desejos masculinos que permitisse aos homens sanarem suas necessidades sexuais sem violar as normas da sociedade honesta: as moças de família. Assim, a frequência dos rapazes entre as prostitutas evitaria que eles cometessem crimes mais graves, como o estupro, ou até mesmo que fossem tomados pelo risco dos desejos homossexuais.
Por outro lado, há que se considerar o fetiche e as representações sobre essas mulheres, que ainda são corpos em que os homens realizam desejos muitas vezes impensáveis para suas respeitáveis esposas. Justificando a necessidade de contenção da sífilis, nosso médico ensinou não apenas as posições a serem utilizadas para o exame clínico das prostitutas, mas observou e descreveu devotamente detalhes de suas roupas, rendinhas das meias e tipos de calçados. A sífilis e um discurso sobre higiene urbana serviram, de alguma forma, de cortina de fumaça para esconder a curiosidade e o fascínio que essas mulheres exerciam também sobre os doutores.
A dualidade “repúdio e aceitação tácita” sugere que a prostituição não seria, para o autor anônimo, apenas uma questão de moralidade ou de saúde pública, mas o reflexo de uma sociedade que, ao tentar camuflar seus desejos mais ocultos, os revela abertamente. O complexo aspecto simbólico da prostituição parece estar sempre na tentativa de confronto entre a "limpeza moral" e o "mal necessário".
No Dia Internacional da Mulher de 2025, cabe uma pergunta ao nosso autor, que poderia ser formulada em 1839: por que você estudou e classificou de forma tão dedicada aquelas que comercializam seus corpos e deixou invisíveis ou vitimizados os homens que as consomem?
O mercado da prostituição transcende a simples contratação presencial; no ambiente digital, o ato de “curtir”, “seguir” e “consumir conteúdos” também alimenta a realidade da prostituta “vetor da sífilis”, com todos os significados atribuídos a essa doença ao longo do tempo. O Dia Internacional da Mulher é uma oportunidade para repensarmos as mulheres que estão à margem, as invisíveis, que servem aos homens nos banheiros de botequins. Um boquete, 5 reais. CLT? Falar de suas vidas e de seus trabalhos é desconfortável, mas elas são nós, essa sociedade.
As prostitutas, trabalhadoras incansáveis e desvalorizadas, tiveram sua presença na sociedade dos oitocentos marcada por uma dualidade: de um lado, um flagelo físico e moral da sífilis, mas de outro, uma necessidade social a ser cumprida.
Raiza Favaro é mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e doutoranda na mesma instituição.
Dra. Maria Regina Cotrim Guimarães é médica na Fiocruz, doutora em história das ciências e da saúde e colabora em projetos com o Laboratório de História das Ciências na Universidade Estadual de Maringá.
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