Desafios do meio ambiente diante do avanço do agronegócio

Entrevista com o biólogo do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), Sérgio Barreto, sobre a proteção do Pantanal

Helio Tinoco - 23/03/2025

Foto: Agência Brasil

As dimensões do Pantanal são repetidas de maneira até exaustiva para retratar a grandiosidade e importância do bioma que, em Mato Grosso do Sul, está cercado pelo dilema da produção agrícola e pecuária. O território, que pode ser denominado “reino das águas”, exemplifica a convivência nem sempre harmoniosa do agronegócio e o meio ambiente. É a economia e a vida em todas as suas expressões.

Dados da Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul) apresentados em dezembro de 2024 apontam que O VBP (Valor Bruto da Produção) no Estado estava estimado
R$ 69,32 bilhões para 2024, puxado, principalmente, pela agricultura (R$ 45,86 bilhões). O índice apresenta queda de 23,2% em relação ao ano anterior (2023), quando foram registrados R$59,73 bilhões. Para a Famasul, a redução é justificada pelos fatores climáticos que impuseram prejuízos às lavouras. Em contrapartida, na pecuária, o VBP apresentou aumento de 4,9% em relação a 2023, com projeção de R$ 24,16 bilhões para 2025, frente a R$23 bilhões em 2023.

Maior produção significa, em princípio, aumento do uso de recursos hídricos e redução da cobertura vegetal nativa. Frente à complexidade do tema e a um certo paradoxo, ouvimos o biólogo do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), Sérgio Barreto, sobre a proteção do Pantanal.

Na avaliação de Sérgio, ainda existe certo desconhecimento de técnicas adequadas que permitam o equilíbrio ambiental e manejo do solo para a produção de alimentos. Entre as ações do IHP está a busca por entendimento nas propriedades rurais, seja na região de Bonito, na região de São Gabriel do Oeste, na região de Rio Negro, na região de Jardim, como forma de garantir a conservação, ao mesmo tempo que possam ocorrer atividades de desenvolvimento econômico.

Sérgio destaca que o Instituto tem alcançado resultados fundamentais para a conservação, com a promoção da correção de solo e plantio para recuperação de áreas no Cerrado, com impacto positivo para o Pantanal. Para o biólogo, esse é um trabalho de médio e longo prazo, mas que precisa ter início.

Entre os exemplos de acolhimento da preservação pelo empresariado, Sérgio cita a parceria com a ADM Cares (Archer Daniels Midland Company) - uma das maiores empresas de nutrição e agronegócio no mundo. A empresa atua no processamento e comercialização de grãos (soja e milho) e tem colaborado com proprietários rurais na correção de solo em 40 hectares da região. A área está distribuída em Rio Negro e o trabalho conta com parceria, também, da Semadesc/Governo do Estado.

O objetivo é o plantio de mais de 8 mil mudas e atuar, ainda, na correção de 45 hectares das áreas de nascente do rio Aquidauana, em São Gabriel do Oeste, e o monitoramento do Rio Miranda desde Jardim até Corumbá. A ação também conta com o trabalho do Iasb, Instituto Guarda Mirim Ambiental de Jardim, do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Miranda e da Polícia Militar Ambiental (PMA).

Interesse econômico e
equilíbrio ambiental no Pantanal

Vila Morena – Como está o trabalho de recuperação ambiental em Bonito?
Há um trabalho intenso de promover a recuperação na região de Bonito/Jardim/Bodoquena e já foi possível garantir importantes resultados, pois há trechos dos rios Betione e rio da Prata que estão com áreas em recuperação em andamento. É um trabalho iniciado há mais de 10 anos e cujos resultados são obtidos somente no longo prazo. As ações de educação ambiental também precisam ser reforçadas para garantir que as atividades promovidas no passado possam ser continuadas. Temos uma realidade que as mudanças climáticas geraram em 2024, com destaque para a estiagem extrema, e houve um sinal de que ainda é preciso reforçar os gestos de recuperação de áreas e ampliação desse trabalho. Na região de nascente do rio Miranda, ainda é preciso um trabalho mais intenso, por exemplo.

Vila Morena – O que leva ao interesse pelo cultivo em cidades sem o histórico de agricultura?A agricultura, naturalmente, tem a possibilidade de promover diferentes fatores ligados ao desenvolvimento. Também é preciso dosar as legislações existentes e entender que, dentro da natureza, as ações acontecem em cadeia. Para existir a agricultura, a conservação também precisa estar presente para garantir, por exemplo, a saúde dos recursos hídricos.

Vila Morena – Em Mato Grosso do Sul, especificamente, é difícil o trabalho entre cultivar e preservar, junto ao agro?
Entre os principais desafios estão reduzir o conflito que pode existir e promover o diálogo para o entendimento comum. O trabalho que envolve o uso da terra depende de um equilíbrio com relação aos limites naturais que existem. Por isso, há técnicas que devem ser empregadas para haver a sustentabilidade e o desenvolvimento. Há diferentes pontos de intersecção que precisamos colocar à mesa, isso envolve um trabalho que reúne ciência e tecnologia para promover a conservação e manter os sistemas produtivos. Temos em Mato Grosso do Sul vários avanços, tanto é que o Pantanal segue conservado em grande porcentagem, há iniciativas em andamento no Cerrado. Mas isso envolve um esforço contínuo.

Vila Morena – É possível uma convivência do bem entre o agro, cerrado e mata atlântica? De que forma pode-se cultivar e preservar?
A produção pecuária e da agricultura depende intrinsecamente da natureza. Um não existe sem o outro. Nosso grande desafio é encontrar o ponto de equilíbrio e usar a tecnologia e a ciência para apoiar a produção sustentável. Entendemos que o Pantanal é um território em que esse ponto de equilíbrio é muito discutido e onde também são praticadas inúmeras experiências. Novamente, falar em diálogo entre os diferentes atores é essencial para gerar a produção sustentável. Também há o olhar para as chamadas soluções baseadas na natureza e haver políticas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) ativas para fomentar a conservação e o equilíbrio com a produção da pecuária e agricultura. Em Mato Grosso do Sul, há uma série de iniciativas que estão buscando consolidar essas propostas. O IHP também contribui nesse sentido ao atuar com projetos de créditos de carbono e créditos de biodiversidade.

Vila Morena – Qual seria o caminho para um agronegócio sustentável?
O agronegócio sustentável busca equilibrar as fontes de recurso disponíveis, sejam os recursos hídricos, o manejo do solo adequado, o respeito às áreas de proteção permanente. Também é possível que essas áreas protegidas representem um ativo, pois elas geram um produto que é a conservação. As soluções baseadas na natureza direcionam o caminho dessa sustentabilidade, e os Pagamentos Por Serviços Ambientais (PSAs) são uma garantia para que a bioeconomia ganhe espaço e força. Como exemplo, temos os créditos de carbono, os créditos de biodiversidade, projetos que o IHP tem trabalhado em conjunto com diferentes parceiros.

Vila Morena – Tanto em Mato Grosso do Sul como no MT, o trabalho de preservação encontra dificuldade?
Existem, sim, ainda grandes desafios para a conservação. Os recursos hídricos, por exemplo, vêm sendo pressionados ao longo dos anos. Nascentes que sofrem com o desmatamento, incêndios florestais favorecidos diante das mudanças climáticas e uma estiagem extrema que vivemos desde 2019 e encontramos um ápice em 2024. Discutir e agir para ter um ponto de equilíbrio é um desafio, que envolve a necessidade de muito diálogo, uso da ciência, uso da tecnologia”.

Vila Morena – A monocultura tem legislação específica?
No Pantanal, em Mato Grosso do Sul, há uma proibição legal do cultivo de monocultura. Esse tema agora vem sendo debatido em Mato Grosso, para a formação de uma lei estadual. Também existe uma discussão no Congresso Nacional, dentro da Câmara dos Deputados, para que haja uma lei federal de uso e conservação do Pantanal, algo que é fundamental para haver políticas públicas e segurança jurídica’.

"O agronegócio sustentável busca equilibrar as fontes de recurso disponíveis, sejam os recursos hídricos, o manejo do solo adequado, o respeito às áreas de proteção permanente. Também é possível que essas áreas protegidas representem um ativo, pois elas geram um produto que é a conservação"