Mário Doraci

A dicotomia do bem e do mal

À primeira vista, pode ser difícil fazer a diferença entre o que é e o que deve ser. A lógica que vem geralmente da filosofia moral informa que é preciso cautela, reflexão, prudência, paciência e, sobretudo, leitura. O primeiro exemplo de mal sem análise de causa e consequência é Caim. Matar o irmão não é bom, mas o contexto é bíblico e dentro da moral religiosa.

Com o passar do tempo, temos César Borgia, o príncipe de Milão, com sua sede de poder, sexo, apoiado totalmente pela hierarquia católica da época. Borgia teve o apoio intelectual nos conselhos de Nicolau Maquiavel. Os executores de massacres e genocídios tentam passar impunes, se escondem da massa, vivem quase na clandestinidade para poder gastar o lucro da própria maldade. E Maquiavel dizia ao príncipe que, se não estivesse ungido pela fé cristã, devia entrar no templo e fingir ser do bem.

Dostoïevski, em seu livro Os Irmãos Karamazov, explora os temas do parricídio e da rebelião contra Deus diante do sofrimento injustificável das crianças. E Nietzsche, na Genealogia da Moral, declara que o bem e o mal não são noções absolutas, mas valores engendrados pelo sentimento dos fracos em relação à moral dos mestres.

Camus, em seu livro A Peste, detalha a propagação da epidemia como se fosse uma alegoria do mal e do nazismo. Mas Camus vai além, ele rasga a carteira do partido comunista por entender que é impossível apoiar uma ideologia política quando Stalin fazia miséria com o totalitarismo na Ucrânia. Em seguida, seu livro O Homem Revoltado é duramente criticado por Sartre, que o acusa de conversão ao cristianismo.

A dicotomia do bem e do mal deixa um próximo do outro. O mal não está fora de nós como se fosse um anjo derrotado, expulso. Camus sustenta que o mal que está no mundo vem geralmente da ignorância, e a boa vontade pode também causar tanto dano e destruição quanto a maldade se ela não é esclarecida.

Spinoza, na ética relativista, garante que o mal não está na natureza, que nada é mal em si. O bem e o mal para Spinoza são maneiras de pensar que servem de comparação. Algo pode ser dito que é mau quando aparece distante do modelo de perfeição, induzindo a imitação da vontade de agir. Camus e Spinoza batem na mesma tecla da ignorância.

No Brasil, por exemplo, se cairmos na análise da ignorância, há uma multidão que se diz “crente”, “de fé”, que o repartir é algo mau, o dividir vem da maldade, a justiça social é comunista. Francamente, a fé dessa gente é a ignorância. E essa “crentaiada” se acha no caminho da perfeição. Para Spinoza, perfeição e imperfeição são apenas maneiras de pensar.

Mas quem esbofeteia a companheira, dispara vários tiros e manda a mulher para o cemitério é a revelação do mal que se fingiu de bem e amor um dia. Schelling, crítico de Spinoza, diz que o mal é inegavelmente afetivo como oposição ao bem. Para ele, cada ser só pode revelar o seu contrário, ou seja, o amor no ódio, a unidade no conflito.

Emmanuel Kant termina por dizer que todos nós temos uma pequena tendência ao mal, mas que o homem não é maldoso ou diabólico. Mas o pobre Kant não conheceu o nazismo e a capacidade de fazer o mal no período da ditadura brasileira. As instituições se reinventaram, nasceram do cinismo capaz de torturar, estuprar, arrancar as unhas e o bico dos seios de mulheres, a separar famílias. A ditadura do Brasil se deitou no verde e amarelo da ignorância, pôs em prática o plano diabólico de eliminar a oposição e quem pensa diferente.

Quem esbofeteia a companheira, dispara vários tiros e manda a mulher para o cemitério é a revelação do mal que se fingiu de bem e amor um dia

Olympe de Gouges, pioneira do feminismo francês esquecida pelo machismo

Ela é vista como a primeira pessoa a enfrentar a matilha de homens, no período de terror, e ter a cabeça decepada na guilhotina. Olympe de Gouges é autora da primeira declaração universal dos direitos da mulher e da cidadã. No entanto, em seu processo, momento em que os “iluminados” homens de lei e dos bons costumes que antecederam a Revolução Francesa, tiveram sua história e percurso ignorados.

Em 3 de novembro de 1793, pela manhã, de camisola branca e cabelos loiros cortados até a nuca, ela foi conduzida na charrete até a praça da Concórdia, onde a maioria dos condenados subia os degraus.

Sem advogado para defender sua causa, o tribunal de Robespierre a condena à morte. Seu legado é lembrado somente dois séculos depois, quando tentam resgatar sua memória e importância. Ao ser condenada, ela disse que se a mulher pode subir as escadas para perder a cabeça na guilhotina, também pode discursar na tribuna e ser eleita.

Olympe de Gouges é considerada a primeira militante feminista. Em seu tempo, ela requisitava a participação da mulher tanto na rua quanto na tribuna do parlamento e na revolução. Ela era chamada pejorativamente de “tricotadeira” pelo fato de convencer as mulheres amaldiçoadas, maltratadas pela monarquia e pelo machismo que vigorava. Em seu discurso, ela afirmava que “a mulher nasce e permanece igual aos homens em direitos”.

A guilhotina era também uma forma de veneração popular e o povo se aglomerava para ver a cabeça se desprender do corpo, cair no chão depois de ser exibida como se fosse o troféu da lei.

A pena de morte francesa somente foi extinta em 1981, quando François Mitterrand foi eleito presidente pela esquerda. O ministro da Justiça, Robert Badinter, dizia que era melhor soltar dois bandidos do que condenar um inocente.

Mas nem tudo são flores e rosas para as mulheres. Se elas hoje ocupam um lugar honrado na política e nos movimentos sociais, não é um presente feito pelos homens, mas da conquista do militantismo, da tomada de consciência e pela coragem de enfrentar o lado opressor.

O exemplo que resgata o feminismo vem de Gisèle Pelicot, a mulher dopada e estuprada por mais de 50 estranhos durante dez anos a mando do próprio marido, que pagava os atos sexuais e gravava em vídeo. A imprensa internacional se fez presente no sul da França, na cidade de Mazan, para testemunhar a coragem desta mulher que decidiu pelo processo aberto e não restrito aos advogados e acusados.

O ex-marido, Dominique Pelicot, reconheceu ter drogado a companheira com ansiolíticos. Inertes e totalmente inconscientes, os clientes contratados pela Internet obedeciam às ordens do carrasco sexista, despiram-se na cozinha, não gemiam e deviam ter as unhas cortadas.

Gisèle Pelicot afirmava que seu desejo era que todas as mulheres vítimas de abuso sexual não se calassem porque o silêncio consente.

Dominique Pelicot teve a condenação exemplar de vinte anos em regime fechado, assim como os clientes do estupro.

Mário Doraci Pinheiro é formado em filosofia e jornalismo em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, fez mestrado em sociologia da comunicação, doutorado em Ciências Políticas pela Universidade Paris 9, França, e pós-doutoramento em Sociologia pela Universidade do Minho, em Braga, Portugal.